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Passageiros

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Viagem de trem pela Toscana (2013) Seus olhares se entrecruzam logo cedo na praça. Um esperava para entrar e o outro esperava chegar. Não sabiam que os lugares deles já estavam reservados. Juntos. Quando o de lá se dá conta que seu ônibus já tinha chegado e seria o mesmo do de cá, sobe apressado, atrasado, se dando conta de que ironia a vida empregaria se encontrasse De Cá ali, sozinho. E lá estava. "A vida encontra formas curiosas de pregar peças", pensou De Lá.   Não demorou muito para que mãos deslizassem subindo e descendo a colina desértica e a nevada, quantas vezes fosse necessário para completar sua procissão, num ritmo sempre intenso e ordenado, Até que os vulcões nos topos das colinas entrassem em erupção expelindo espessas gotas de lava, escorrendo por seus relevos rumo à base e se espalhando pelos terrenos uma da outra. Coisa curiosa é a lava. Por onde passa, deixa seus rastros e se solidifica. Vira uma rocha. Certamente essa viagem ficaria sólida nas memórias daqu

Um visitante que nunca se vai

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  Um visitante que nunca se vai "Os visitantes inesperados", de Ilya Yefimovich Repin (1888). Por que você insiste em ficar? O que mais preciso fazer para mandá-lo embora de vez? Por que não se vai e me deixa em paz?  Prometo que nossas memórias ficarão guardadas a salvo para sempre comigo, e eu poderia colocá-las junto com os mapas, panfletos, chaveiros, pedrinhas e bilhetes de passagens que guardo numa caixinha de veludo no fundo do armário. São uma singela coletânea de todos os momentos e lugares especiais por onde estive. Pegadas e rastros que deixei pelo mundo.  Mas me dou conta de que não posso guardá-lo junto com esses objetos. Você é forte demais, intenso demais, vivo demais para ser esquecido por dias, semanas e meses até que, por fim, eu lembre de tirá-lo do armário para mostrar a um amigo querido durante uma conversa casual sobre viagens. Diferente de minha preciosa caixinha, que abro e me surpreendo com os pequenos tesouros que havia esquecido que um dia os coloqu

O universo do olhar

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Olhar da arte, de Ana Felix Garjan Um olhar pode ser muito mais poderoso do que se pensa. O olhar genuíno, empático, disponível, é como uma pequena janela que conduz a vasto universo interior e único. A princípio pode parecer uma simples esfera oca e colorida. Mas ele recebe a luminosidade, e também meu olhar no dele, daquele rapaz, assim como o meu recebe e acolhe a luz que vem do outro. A prática de ficar em círculo e olhar nos olhos de outro homem por certo tempo a princípio é extremamente desconfortável, pois quando olho frente a frente, também sou olhado. Como conseguiria sustentar ser penetrado tão profundamente assim por um estranho? Ele vai ter acesso aquilo de mais íntimo que guardo aqui dentro! Vai acessar todas as minhas fraquezas, minhas inseguranças infantis não trabalhadas - ou ainda em processo de autodescoberta - a vergonha que guardo como se fosse uma meia velha e furada no fundo de uma gaveta, e que não permito que os outros vejam seu furo, sempre enfiando-lhe dentro

Quando o fim chega

  Então é isso. A mensagem dele chegou. A coragem que eu nunca tive antes e que veio do outro para me ensinar uma das lições mais importantes que qualquer pessoa deve aprender: a respeitar o fim das coisas.  Eu coloquei um fim na nossa relação, porém demorou muito tempo para que eu verbalizasse isso. Foi necessária toda uma montanha-russa de emoções, descontentamentos e traições que culminaram numa nova paixão. Efêmera, intensa, que chegou como um tsunami desde o primeiro dia que nos conhecemos. Esse tsunami saiu arrastando todas as raízes e construções capengas que não estavam firmemente assentadas no solo árido da nossa relação de tantos anos.  Não teria sobrado pedra sobre pedra? Claro que teria. O amor, o carinho e a admiração estavam lá ainda, debaixo dos escombros. As raízes mais profundas que nutriram nossa vida a dois por tanto tempo jamais seriam, e não serão, arrancadas mesmo que todas as placas tectônicas do planeta colidissem de uma só vez.   Tentamos e tentamos, ambos, esc

Uma morte simbólica no Dia dos Pais

     Chegou mais um dia dos pais. Essa data sempre me passa indiferente. Até então, se resumia a mais uma obrigação de comprar um presente que eu não fazia a menor questão de dar para meu pai, ou simplesmente nem comprar é só dar um constrangido aperto de mão. Bem, desta vez não está sendo assim.  Meu processo de a proximação da masculinidade começou em 2021. Aos 31 anos. Até aquele momento, o sofrimento dos homens era pra mim algo quase impensável. Imerso em distorções da minha cabeça e outras que se escuta e lê na sociedade, eu tinha dificuldades em aceitar que, homens privilegiados e principalmente os heterossexuais, pudessem ter legitimidade em sofrer. Foi quando assisti o documentário “O silêncio dos homens”. Um amigo me recomendou esse documentário e foi quando perceb i que eu tinha dificuldades em legitimar o sofrimento dos homens por: 1) não termos, enquanto homens, muito acesso a mecanismos e espaços propícios para falar desses problemas, por isso o silêncio. Eu não era capaz